Espanha de luto após colisão de trens que deixou 69 mortos
A Espanha iniciou nesta quinta-feira (29) um período de três dias de luto pela morte de pelo menos 69 pessoas na colisão de dois trens ocorrida na quarta-feira, enquanto as equipes de resgate continuam procurando vítimas entre os vagões destruídos do segundo grande desastre ferroviário deste ano no país.
A tragédia, que deixou o país novamente em estado de choque, gerou mais dúvidas sobre a segurança da rede ferroviária nacional. Em janeiro, a colisão de dois trens de alta velocidade em Adamuz, na Andaluzia, deixou 46 mortos.
O acidente de quarta-feira aconteceu a 150 quilômetros ao sul de Madri, quando um trem da companhia estatal Renfe, que havia partido da capital com destino a Sevilha, colidiu com outra composição, da empresa Iryo, que estava parada na via.
"Foi uma pancada muito forte, durou muito tempo", disse Pablo Mejía, de 42 anos, que provavelmente escapou com vida por ter procurado um assento mais confortável em outro vagão. "Acho que nasci de novo", afirmou, com ferimentos no rosto e o casaco manchado de sangue.
Os serviços de emergência, auxiliados por dois guindastes, continuavam procurando vítimas entre a massa de ferros destruídos nos vagões mais atingidos.
Os cães especializados da Guarda Civil também trabalhavam na área. "Eles estão percorrendo os trilhos para ver se há algum vestígio biológico, que é a nossa prioridade neste momento", explicou Pedro Pablo Garrido, porta-voz da Guarda Civil de Toledo.
O balanço provisório da tragédia aumentou para 69 mortos e quase 50 feridos hospitalizados, segundo as autoridades regionais de Castilla-La Mancha, no centro do país, onde ocorreu o acidente.
- "Reforçar a segurança" -
Após uma reunião do comitê de emergências, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reiterou o compromisso de determinar as causas da colisão.
"Estamos trabalhando dia e noite não apenas para dar uma resposta aos familiares das vítimas, mas também para esclarecer até o último detalhe desta tragédia e, é claro, reforçar a segurança para que isto não volte a acontecer", disse
Os reis da Espanha, Felipe VI e Letizia, visitarão nesta quinta-feira os feridos internados em um hospital de Toledo, a quase 70 quilômetros do local do acidente, informou a Casa Real.
No município de Urda, o mais próximo ao local da tragédia, uma escola foi habilitada para receber os parentes das vítimas, que contam com o apoio de funcionários da Cruz Vermelha.
"Serão horas duras e longas", disse Carmen García, psicóloga que atende as famílias no centro improvisado.
"Temos pessoas em estado de choque, que não têm consciência do que aconteceu, pessoas irritadas, pessoas tristes, preocupadas, o luto vai ser complicado", acrescentou.
O pároco de Urda, José Miguel Fernández, também compareceu para prestar apoio às famílias.
"Muitos deles estavam serenos, outros nervosos, sem esperança, queriam saber logo e ter notícias de seus entes queridos", explicou.
- "Inexplicáveis" -
O acidente aconteceu às 8h53 locais (4h53 de Brasília), quando o trem da Renfe colidiu com o Iryo, que estava parado, explicou o ministro dos Transportes, Óscar Puente.
Segundo os primeiros indícios, por volta das 8h30 locais ocorreu uma "falha informática" em um trecho de 69 quilômetros. Isso obrigou, como está previsto, uma paralisação de seis trens, incluindo os dois acidentados, disse Puente.
Mas pelo menos um deles, o da Renfe, retomou a marcha alguns minutos depois, normalmente e sem as precauções de velocidade estabelecidas, percorrendo quase 25 quilômetros antes de atingir a parte traseira do trem da Iryo.
"É o centro de controle, por meio de seus operadores, que toma a decisão de retomar a marcha, em circunstâncias que, do nosso ponto de vista, são inexplicáveis", avaliou Puente, ao classificar a ordem como "equivocada".
Anunciada há vários dias e mantida apesar da tragédia, nesta quinta-feira o principal sindicato de maquinistas (SEMAF) cumpre um dia de greve.
O acidente ocorreu a um mês das eleições gerais antecipadas, convocadas para 29 de novembro pelo primeiro-ministro Sánchez, cujo Executivo já havia sido muito criticado pela oposição após o acidente de Adamuz, em 18 de janeiro.
J.Hughes--VC